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Movidos pelo desejo legítimo de ter uma aparência melhor, milhares
de brasileiros recorrem à cirurgia plástica como quem vai às compras.
Para tudo, no entanto, há limite.
"Formas perfeitas ao alcance de todos." "Tenha um corpo irresistível."
"Beleza, harmonia, sensibilidade... Conceitos ligados à arte, manejados
por quem entende do que faz." As frases entre aspas que você acabou
de ler parecem tiradas de propagandas de academia de ginástica,
de comida light ou até de loja de decoração. São, na verdade, anúncios
de clínicas de cirurgia plástica, veiculados em revistas especializadas
no ramo, como Plástica & Beleza e Corpo & Plástica. Essa é uma das
faces da popularização das operações estéticas no país. Para se
ter uma idéia, só no ano passado 350.000 brasileiros caíram na faca
para ficar mais bonitos. Ou seja, em cada grupo de 100.000 habitantes,
207 foram operados. Os Estados Unidos, tradicionais líderes do ranking
em números absolutos, registraram no mesmo período 185 operados
por 100.000. Isso significa que o Brasil se tornou campeão mundial
da categoria. Desde 1994, quando entrou em cena o Plano Real, que
estabilizou a economia e ampliou o poder de consumo, fazer plástica
integra o rol de aspirações possíveis da classe média. Além disso,
os procedimentos estão mais rápidos, seguros e eficazes. A avaliação
do panorama geral costuma ser positiva em todos os sentidos - do
estritamente técnico ao existencial. Afinal de contas, ao contrário
do que acreditam os mal-humorados, para os quais essência é o oposto
de aparência, não há nada de errado em querer perder gordura localizada
por lipoaspiração, eliminar pés-de-galinha com um lifting ou aumentar
um pouco os seios com silicone. Melhorar o corpo e rejuvenescer
o rosto, é sabido, ajuda a manter a auto-estima lá em cima, com
reflexos na vida pessoal e profissional. Examinado mais de perto,
porém, o universo róseo da cirurgia plástica apresenta manchas preocupantes.
Para começar, boa parte dos médicos que se intitulam plásticos não
tem formação para praticar a especialidade. Se quiser tornar-se
um cirurgião plástico reconhecido, com o direito de se anunciar
como tal, o médico precisa fazer dois anos de residência em cirurgia
geral e outros três em cirurgia plástica. O título de especialista
só é conquistado depois da aprovação nos testes escrito, oral e
prático da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. No ano passado,
130 médicos se submeteram aos exames. Apenas metade passou. Na prática,
todo esse rigor tem pouca serventia. Por uma razão simples: ninguém
controla a atuação dos profissionais sem habilitação. Basta folhear
as tais revistas dedicadas a operações estéticas. Uma consulta aos
arquivos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revela que
vários dos doutores que anunciam seus serviços não contam com o
título de especialista.
Calcula-se
que haja 1.500 médicos no país que praticam cirurgia plástica sem
estar preparados. O resultado é o aumento contínuo das denúncias
de erro - de 2000 para 2001, o Conselho Federal de Medicina registrou
um crescimento de 35% no número de processos por imperícia. É a
área médica com a maior proporção de reclamações - no ano passado,
de cada 1.000 profissionais, dezoito foram denunciados. Para efeito
de comparação, em ginecologia e obstetrícia, área que também costuma
apresentar muitos problemas, esse número não passou de 4 por 1.000.
Quase 10% das operações que os cirurgiões plásticos mais respeitados
do país fazem são para reparar estragos feitos por gente não habilitada.
O exemplo mais recente e dramático da distorção no mercado da plástica
é o de Denísio Marcelo Caron. Aos 38 anos, diplomado pela Universidade
Severino Sombra, no Rio de Janeiro, ele é acusado de homicídio doloso
pela morte de cinco mulheres, em Goiânia e Brasília, além de ser
alvo de 35 denúncias por erro médico. Caron, que não tem nenhuma
formação em cirurgia plástica, prometia a perfeição corporal a preço
módico - 7 100 reais, parcelados, por uma lipoaspiração completa
nos glúteos, barriga e culote e próteses de silicone nos seios.
Esses profissionais despreparados juntam-se a inúmeros especialistas
de certificado na parede na hora de vender pacotes cosméticos que
primam pelo exagero. Estima-se que 20% das operações estéticas realizadas
no Brasil a cada ano sejam absolutamente desnecessárias. A campeã
da inutilidade é a lipoaspiração. Na maioria dos casos, ela pode
ser substituída pela combinação de dieta e exercícios físicos. Mas
quem resiste à promessa de um corpinho enxuto sem maiores sacrifícios?
Pois é, só que lipoaspiração não é saída para emagrecer. Serve apenas
para retirar gordura localizada - e, mesmo assim, se depois da lipo
a pessoa não persistir na ginástica e no regime, os culotes e pneuzinhos
voltam logo a inflar. Outro exemplo de exagero é a idade média dos
operados no Brasil. Hoje, ela está em 35 anos, de acordo com um
levantamento do cirurgião Volney Pitombo, que tem uma das mais respeitadas
clínicas do Rio de Janeiro. Isso mesmo: pessoas de 35 anos ou até
menos estão recorrendo a todo tipo de operação para ter um "corpo
perfeito" e... parecer mais jovens!
É evidente que só existe alguém que vende exageros porque há quem
os compre. A verdade é que a busca por um ideal estético inatingível
e pela eterna juventude assumiu proporções jamais vistas no Brasil.
Ainda inédito, um estudo do Hospital das Clínicas de São Paulo dimensionou,
pela primeira vez, o grau de insatisfação dos brasileiros com a
própria imagem. Em novembro do ano passado, a equipe da psicanalista
Mara Cristina Souza de Lucia ouviu cerca de 350 homens e mulheres
da classe média paulista. A maioria estava no peso ideal, mas, ainda
assim, seis de cada dez revelaram que freqüentemente ficavam irritados,
ansiosos e até deprimidos com a própria silhueta. Uma das perguntas
da pesquisa era: "Você se imagina cortando porções do seu corpo?".
Metade dos entrevistados respondeu afirmativamente. Outra questão
curiosa era: "Você tenta convencer as pessoas de que não está bem
quando lhe dizem que você está ótimo?". Cerca de 60% das pessoas
disseram que sim. Ou seja, auto-estima zero. Apesar de toda essa
insatisfação, quase 55% dos entrevistados declararam não se exercitar
para melhorar a aparência - e é no vácuo dessa tendência ao menor
esforço que muitos médicos oferecem seus préstimos, prometendo o
impossível.
A partir desse estudo, também é possível concluir que 80% das mulheres
entre 18 e 39 anos têm o costume de se comparar a modelos e atrizes.
A conseqüência disso é que, na hora de cair na faca, se pede ao
cirurgião "o nariz de Nicole Kidman", "os seios de Gisele Bündchen"
e por aí vai. O nariz de Nicole Kidman, os seios de Gisele Bündchen
ou a boca de Julia Roberts são mesmo obras de arte da genética.
Mas só o são porque fazem parte de um conjunto harmonioso, que nenhum
cirurgião plástico é capaz de reproduzir. Diante de pedidos do tipo
"quero o queixo de fulana" ou "a barriga de sicrana", os profissionais
sérios dizem a suas clientes que a coisa não funciona assim e, se
a insistência é grande, simplesmente se recusam a fazer a operação.
Já os médicos menos preocupados com os aspectos éticos (e estéticos)
fazem qualquer negócio - é por isso que há tantos narizes plasticamente
arrebitados em rostos que não combinariam com esse tipo de anatomia.
Em 1987, a Academia Americana de Psiquiatria classificou de doença
a obsessão por rostos e corpos perfeitos. O distúrbio recebeu o
nome de dismorfia corporal. Suas vítimas acabam por ter uma visão
distorcida de si mesmas. Qualquer imperfeiçãozinha, como um culote
levemente proeminente, é posta sob uma lente de aumento e se torna
um problemão. Nos casos mais graves, a dismorfia corporal leva à
depressão. "As vítimas dessa doença estão se tornando cada vez mais
comuns nos consultórios de cirurgia plástica. E o pior é que, não
raro, elas encontram ali a confirmação de que seus complexos têm
base na realidade", constata a psicóloga paulista Sandra Faragó.
A dismorfia corporal é ruim para quem sofre dela, mas ótima para
o médico sem escrúpulos. Ele ganha, com isso, um cliente que não
pára de se submeter a uma intervenção atrás da outra, como se as
possibilidades cirúrgicas não tivessem um limite.
Entre os procedimentos mais rentáveis e menos demorados, estão as
aplicações de Botox, substância feita a partir da toxina botulínica,
causadora do botulismo e empregada para atenuar rugas faciais. Assim
como ocorre nos Estados Unidos, viraram moda numa certa parcela
de brasileiros abonados as "Botox parties" (festas de Botox, em
inglês). O médico vai até a casa de uma cliente e aplica injeções
da substância nela e em suas amigas, enquanto empregados servem
bebida e canapês. Parece até cena de filme surrealista. O FDA, a
agência do governo americano que controla a comercialização de remédios
e alimentos, está para aprovar o uso estético da toxina. Com isso,
será permitido nos Estados Unidos anunciar Botox nos grandes meios
de comunicação do país. Essa tremenda caixa de ressonância deverá
ampliar ainda mais a utilização da substância em todo o mundo. É
um perigo. "As pessoas acham que a aplicação de Botox pode ser feita
por qualquer um. Mas erros graves podem ocorrer se o profissional
não tiver preparo", alerta o cirurgião plástico Paulo Matsudo, o
primeiro médico a usar a toxina no Brasil. Por exemplo: em excesso,
a substância, que provoca uma paralisia muscular circunscrita, deixa
a face sem nenhuma expressão, causando o efeito conhecido como "rosto
de boneca".
Ao entrar em algumas clínicas onde se faz plástica, a impressão
que se tem é a de que se está numa maravilhosa fábrica de corpos
perfeitos. Muitos médicos exibem engenhocas de última geração, como
se essas fossem por si sós provas de competência. Não é incomum,
ainda, que esses mesmos profissionais mostrem a seus clientes os
resultados obtidos em outras intervenções, numa espécie de catálogo
de seios, narizes, nádegas, barrigas etc. É bom desconfiar desses
e de outros tipos de comportamento. O bom cirurgião não precisa
apregoar seus serviços em anúncios de revista ou de jornal. O bom
cirurgião não utiliza o recurso de simular os resultados da cirurgia
no computador. Ele sabe que esse tipo de expediente só aumenta a
expectativa do paciente e o risco de decepção depois da operação.
"Uma conversa franca sobre o que é possível ou não fazer transmite
mais confiança ao paciente. É mais real do que mostrar uma imagem
que nem sempre se concretizará", costuma dizer Ivo Pitanguy, o grande
nome da cirurgia plástica do Brasil.
É difícil escapar da atmosfera de sonho que envolve o mundo da cirurgia
plástica. Na televisão e nas revistas, celebridades esculturais
transmitem a idéia de que é possível escolher um corpo novo com
a mesma facilidade de quem decide comprar esta ou aquela roupa.
Em muitas clínicas, o vaivém de atores e atrizes estimula o cliente
comum a se submeter a operações inúteis, oferecidas por médicos
gananciosos. Nessa hora, é preciso ter em mente que a plástica é
uma cirurgia que comporta riscos como qualquer outra. Até o procedimento
que transcorreu sem problemas pode evoluir mal. Nenhum cirurgião,
por exemplo, tem controle sobre o processo de cicatrização de cada
paciente. Mesmo em operações simples podem ocorrer infarto, infecções,
acidente vascular cerebral, embolia e até choque anafilático. Sem
contar as complicações específicas de cada técnica. Ninguém que
se submeta a uma lipoaspiração está livre de adquirir irregularidades
na pele. Tão importantes quanto o aparato técnico que garante a
sobrevivência na sala de cirurgia são os exames pré-operatórios
- eletrocardiograma, hemograma e outros. Quanto maior o tempo de
cirurgia, maior a probabilidade de complicações, explicam os médicos.
A plástica de abdome, que dura cerca de três horas, oferece mais
riscos que a de nariz, que leva em média uma hora e meia. Erros
e imprevistos, enfim, acontecem. Só que eles são menos freqüentes
quando o médico é habilitado e do tipo que não oferece metamorfoses
milagrosas. Pense, então, duas vezes antes de se deixar levar pelo
nariz de Nicole Kidman.
LIPOASPIRAÇÃO:
O procedimento hoje é feito com cânulas de 2 milímetros de diâmetro
e anestesia local.
ATENÇÃO
Antes de mais nada: apesar das propagandas que alardeiam o contrário,
a lipoaspiração não é um procedimento banal. Por mais fina que seja
a cânula, ela provoca traumatismo e sangramento Não trata a obesidade,
não acaba com a celulite, tampouco com a flacidez. Destina-se, sim,
à retirada de gordura localizada. Por isso, se o paciente é gordo,
os médicos sérios recomendam primeiro a perda de peso A quantidade
de gordura aspirada não deve ultrapassar 5% do peso do paciente,
sob o risco de ele vir a sofrer de anemia Nas mãos de um médico
inexperiente, o paciente pode sair da mesa de operação com algumas
partes do corpo mais salientes que outras. Também existe o risco
de perfuração de órgãos vitais - como o intestino, na lipoaspiração
de abdome.
REJUVENESCIMENTO FACIAL:
No passado, a plástica de rosto consistia apenas em esticar a pele
enrugada - o que conferia à operada a feição de "mulher plastificada".
As técnicas mais modernas modelam os músculos que provocaram o enrugamento.
Isso garante uma fisionomia mais natural.
ATENÇÃO
O médico inábil pode repuxar demais a pele da paciente, deixando-a
com a boca e os olhos esticados Os médicos sem formação adequada
podem lesionar um dos nervos da face. As possíveis seqüelas dessa
barbeiragem são boca e olhos tortos.
A cirurgia para a retirada das bolsas de gordura sob os olhos é
feita com laser, por uma incisão na parte inferior interna da pálpebra.
Ao mesmo tempo que corta, o laser promove a coagulação dos vasos
sanguíneos. Com isso, as manchas roxas no pós-operatório diminuem.
É a cirurgia mais procurada pelos homens, depois da lipoaspiração
no abdome, nos flancos e na papada.
ATENÇÃO
As rugas finas e as olheiras não desaparecem Se o médico exagera
na quantidade de tecido retirada, as sobrancelhas são rebaixadas,
deixando o paciente com a fisionomia de eterna tristeza.
AUMENTO DE MAMA:
Novas próteses de silicone, texturizadas ou cobertas com esponja
de poliuretano, facilitam o processo de cicatrização interna e dão
um aspecto bem mais natural às mamas. Habitualmente, a prótese é
colocada entre a mama e o músculo peitoral.
ATENÇÃO
A pele não agüenta muito mais que 200 mililitros de silicone em
cada mama Médicos inábeis podem deixar uma mama mais para cima que
a outra Nas mãos de um aventureiro, o maior perigo durante a cirurgia
é que ele perfure o tórax da paciente, deflagrando problemas pulmonares
que podem ser fatais.
REDUÇÃO DE MAMA:
Com os avanços cirúrgicos, as cicatrizes estão cada vez menores.
ATENÇÃO
A cirurgia feita pela aréola é indicada para a retirada de pequenos
volumes de mama. Quando o médico não tem competência para fazer
a operação e força demais o corte, as cicatrizes tendem a ser grossas
e vermelhas.
Fonte
:Revista Veja
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